O que os comunistas fazem quando não têm o poder
- Allan dos Santos

- 17 de out. de 2024
- 3 min de leitura
A necessidade de nacionalizar o marxismo para sua aplicação prática

Tom Frampton e Pete Seeger já são figuras carimbadas quando o assunto é artista declaradamente marxista, mas o que é novidade pra mim é isso também ter chegado no blues. Huddie William Ledbetter, bluesman que faleceu em 1949 e era conhecido como Lead Belly, chegou a gravar uma música chamada The Bourgeois Blues em 1937. A relação entre Belly e o partido comunista ocorreu por meio do ativista político, músico e membro do Partido Comunista Alan Lomax, que chegou a ser diretor da Biblioteca do Congresso americano.
Lomax, muito similar ao trabalho de outro comunista, José Ramos Tinhorão, coletou material inicialmente com seu pai, o folclorista e colecionador John Lomax, depois com um grupo igualmente repleto de membros do Partido Comunista. Por meio desse trabalho, ele gravou milhares de canções e entrevistas para o Arquivo de Canção Popular Americana, do qual ele era o diretor na Biblioteca do Congresso. Foi exatamente o trabalho de Tinhorão no Brasil.
Depois de 1942, quando o Congresso cortou o financiamento da Biblioteca do Congresso para a coleta de canções folclóricas, Lomax continuou a reunir e coletar seu acervo pessoal com a ajuda dos comunistas na Grã-Bretanha, Irlanda, Caribe, Itália e Espanha, bem como nos Estados Unidos, usando a mais recente tecnologia de gravação da época, reunindo uma enorme coleção de cultura americana e internacional.
Após seu retorno a Nova York em 1959, Lomax produziu um show, Folksong ‘59, no Carnegie Hall, apresentando o cantor do Arkansas Jimmy Driftwood; The Selah Jubilee Singers e Drexel Singers (grupos gospel); Muddy Waters e Memphis Slim (blues); Earl Taylor e os Stoney Mountain Boys (bluegrass); Pete Seeger, Mike Seeger (revival do folk urbano); e The Cadillacs (um grupo de rock and roll).
Lomax era membro e fundador da Frente Popular (Popular Front) americana e criador da organização Música do Povo, movimento comunista dos anos de 1940. O movimento gramscista com a fusão de Freud nos livros de Hebert Marcuse e a escola de Frankfurt são os responsáveis pela exaltação do sexo livre e da libertinagem dos anos 1940 em diante. Mas os intelectuais não foram os únicos a trabalhar, havia um trabalho cultural na música. Era preciso usar a identidade nacional para que a idéia dominante fosse a de um mundo internacionalista e sem fronteiras. Nas palavras de Mao Tsé Tung:
"Um comunista é um internacionalista marxista, mas o marxismo tem que assumir uma forma nacional antes de poder ser aplicado".
No Brasil não foi diferente…
A mesma diretriz havia sido dada por Moscou aos seus agentes no Brasil: em 1951, Tinhorão, que começou a trabalhar na Revista da Semana, foi levado para o Diário Carioca no ano seguinte. De lá, Janio de Freitas, comunista que até hoje não esconde sua ideologia defendendo Lula, na Folha, leva Tinhorão para o Jornal do Brasil onde ele cria o Caderno B com outro comunista Sérgio Cabral (o pai) e exalta o samba em detrimento das músicas populares do norte, nordeste, sul e centro oeste, alegando que o samba é o reflexo das músicas medievais de Veneza contra a autoridade da Igreja e do Estado. Um doido completo. Também foi duro crítico da bossa-nova e de qualquer influência americana na música brasileira.
Isso explica, no Brasil, o total desconhecimento de músicas como Jacarepaguá Blues, de Zé Ramalho (com solos incríveis) e a falta de apoio a músicos que cantavam em inglês, como Raul Seixas, Tim Maia e outros. Mas isso ficará para um outro artigo.
Quem conhecia esses intelectuais? Quase ninguém, mas o trabalho deles teve mais impacto no povo do que Reagan e Lacerda. Essa guerra cultural é bem mais profunda que vocês imaginam. Isso, pessoal, não se vence com votos.
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