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Beethoven: uma visão em retrospectiva

O gênio, a obra épica e a humildade


“Após uma vida de lutas, Beethoven, encerrado em seu túmulo, continua a lutar”.

A frase de Romain Rolland, biógrafo do mais conhecido filho de Bonn, em sua obra Beethoven (Edições Cosmos, Lisboa), mostra uma vez mais que a força da obra de Beethoven reside, em grande parte, na ruptura que ela cria com o passado, enraizada nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade propostos pela Revolução Francesa, que não somente desestabilizaram e espalharam uma onda de terror sobre toda a aristocracia do velho continente, mas também ganharam peso e volume sobre os inúmeros rascunhos musicais do compositor, transformando a visão musical e cultural de sua época.

Casa de Beethoven em Bonn - Fotógrafo: Thomas Wolf (www.foto-tw.de)

Quando o jovem Ludwig ainda não havia completado os 17 anos, já havia perdido a mãe e quatro irmãos, tornando-se arrimo de família. O pai era alcoólatra. Nunca conseguindo realizar seu sonho de ter aulas com Mozart, a quem tanto reverenciava, teve em Haydn seu grande mestre. Dez anos mais tarde, surgem os primeiros sintomas da surdez justamente naquele que deveria ter na audição o seu sentido mais aguçado. Una-se a isso o seu afastamento voluntário da classe artística e cultural como um modo de encobrir sua deficiência auditiva (Testamento Heiligenstadt). Como afirma o crítico musical Arthur Nestrovski:


“Os bons músicos tocam Beethoven com a malícia de Haydn e a naturalidade de Mozart, devidamente homenageadas e destruídas pelo espírito de Beethoven”.

Sem dúvida, o fogo trazido pelos ideais iluministas encontrou a lenha precisa e exata de uma vida pessoal carregada de sentido de contestação, de revolta agressiva e de muito sofrimento, características seguras para todos aqueles que querem entender e interpretar sua obra.

Estátua de Beethoven em Bonn por Ernst Julius Hähnel

Na tentativa de entender essa ruptura, o literato E. T. A. Hoffmann (1776 - 1822) pôs-se a redigir uma série de ensaios visando a precisar a compreensão da obra de Beethoven. Curioso é verificar que as palavras crítica e crise provêm da mesma palavra grega krinein, que significa “quebrar”. Fazer uma crítica é quebrar, é colocar em crise uma ideia que se fazia dela, identificando o que compõe uma obra, questionando hábitos de compreensão, situando a interpretação, não se limitando simplesmente a opinar baseados exclusivamente nos prazeres da escuta – o famoso “gosto” ou “não gosto” -, mas na construção objetiva de um consenso sobre a obra. Isso não é arrogância, mas abertura para novos paradigmas. Foram essas análises de Hoffmann sobre a grandiosidade da obra de Beethoven que originaram o conceito e a figura do crítico musical como conhecemos hoje em dia. Curiosamente, a obra de Beethoven é em si mesma uma crítica, na medida em que é ruptura.

 

Paralelamente, o piano – instrumento no qual Beethoven se apoiava completamente para elaboração de suas composições – passava por profundas transformações, também em extensão, saindo de suas 63 para 79 notas. Esse aumento coincide com as composições de Beethoven que utilizam a extensão como fator dramático. Suas 32 sonatas, terreno no qual Beethoven reinventa a música, apresentam tal força que até mesmo Brahms, movido por um instinto suicida de autocrítica, destruiu mais da metade de suas próprias obras – que infelizmente nunca chegaremos a conhecer – por ter que dar conta da desproporção que julgava existir entre o seu talento e o do grande mestre. Vê-se que a música de Beethoven tocava profundezas psíquicas, também porque nelas tinha a sua origem.

 

A perda precoce da mãe e da irmã – figuras femininas que Beethoven idolatrava – e a profunda aversão à figura paterna foram as responsáveis, em grande parte, por sua instabilidade emocional e afetiva, um certo desajuste, carecendo desde sua infância do apoio necessário que a psicologia feminina traz. Certamente, os ideais libertários e revolucionários europeus do fim do século XVIII foram o desaguadouro que Beethoven encontrou como forma de dar vazão a possíveis abalos afetivos, criando aí o gérmen do contundente caráter épico de muitas de suas obras, como observado em suas Overtures Coriolano e Egmont. Esse caráter psicologicamente dicotômico e ao mesmo tempo épico pode ser rapidamente detectado pelos ouvidos atentos daqueles que se deparam com a sua sonata Op. 57 “Apassionata”, em que os temas desenvolvidos pelas mãos direita e esquerda do pianista sempre estão levemente defasados: é a figura do desajuste, do descompasso das duas psicologias em busca de harmonia e coesão (assista ao vídeo exemplificativo). E parece que Beethoven não se preocupa em resolver essa dicotomia. Pelo contrário, a explora, mostrando um lado interno que está em contínua busca e que é o motor de sua capacidade produtiva. Em Beethoven, isso ocorre de modo impressionante, pois sentimos nele a força interior granítica que o sustentou ao longo de todos os seus problemas físicos e psíquicos.



Fisicamente, era um homem comum, provido de aparência pacata, pouco atrativa, como uma concha que, mesmo sendo vulgar, esconde a pérola preciosa. Ouçamos o que descreve a família Fischer, proprietários em Bonn da casa onde nasceu Ludwig:


“Ele era baixo, forte, tez escura, ombros largos e de aparência comum, com um nariz redondo, rosto feio, avermelhado e cheio de marcas, talvez de varíola. A análise de sua máscara mortuária revela que seu rosto também exibia outras lesões e sulcos. Seu cabelo era muito escuro e caía, desarrumado, em torno do rosto. (...) Suas roupas eram muito ordinárias, não muito diferentes da moda daqueles dias. (...) Falava com um sotaque forte e de uma maneira bastante comum. (...) Não tinha maneiras educadas, nem nos gestos, nem na conduta. Ele sempre se inclinava um pouco para frente ao caminhar”.
À direita: máscara mortuária de Beethoven

Em toda a sua genialidade, Beethoven não se via como absoluto. Estando a boa crítica sempre baseada em autocrítica, admira e cativa verificar a lucidez e sensatez comumente encontradas naqueles que possuem clara consciência do sentido estético do dom recebido. Beethoven afirmava:


“O verdadeiro artista não tem orgulho. Ele vê, infelizmente, que a arte não tem limites. Ele tem uma vaga percepção de quão longe ainda está do seu objetivo e, embora outros possam talvez admirá-lo, ele lamenta ainda não ter chegado ao ponto, caminho que seu melhor talento apenas ilumina como um sol distante”.

Essa reação de humildade se encontra também em outra carta escrita à cantora Christine Gerhardi:


“É um sentimento peculiar ver-se elogiado e, ao mesmo tempo, perceber a própria inferioridade, como eu percebo. Sempre encaro tais ocasiões como uma advertência para me esforçar mais na direção do objetivo inacessível que a arte e a natureza nos impuseram”.

Não é necessário nenhum conhecimento prévio para apreciar a boa música e gostar dela. Entretanto, conhecer a história dos compositores e as circunstâncias das composições traz novos elementos à escuta. A música é no domínio dos sons o que a literatura é no domínio das palavras. Desprezar a chance de ouvir os grandes compositores seria o mesmo que proibir a si mesmo a leitura de Shakespeare. Além disso, a música de Beethoven é o único grande acesso que temos para conhecer em profundidade, sem intermediários, esse gênio na sua pura fonte. Fica o convite.

Ilustração: Renderização 3D de Beethoven - Por Hadi Karimi (https://hadikarimi.com/)

Testamento Heiligenstadt


Documento sobre sua surdez, cuidadosamente escrito por Beethoven por mostrar sinais de contínuas correções. Datado de 1802, escrito a seus dois únicos irmãos ainda vivos, foi mantido escondido entre seus papéis privados e encontrado após sua morte. O testamento é também direcionado ao mundo em geral.

Túmulo “Ludwig van Beethoven”, Cemitério Central, Viena, Áustria (2018)

A “Amada Imortal”


São muitas as especulações sobre quem seria a mulher a quem Beethoven dirigiu a mais famosa e a mais notória de suas cartas, na busca de estabelecer um relacionamento que pudesse de alguma forma redimi-lo de sua miséria. Como ocorreu com o Testamento de Heiligenstadt, também foi encontrada entre seus papéis depois da sua morte. Alguns afirmam ser Giuletta Guicciardo, a quem dedicou a sua Sonata ao Luar (assista ao vídeo). Outros afirmam ser Josephine von Brunsvik-Deym-Stackelberg, recentemente viúva, em quem Beethoven depositou seu coração apaixonado, sem ser correspondido. Segundo o biógrafo Maynard Solomon, ela seria Antonie Brentano, dez anos mais jovem que Beethoven, pertencente a proeminente família vienense.

Minha Amada Imortal - Filme: Bernard Rose & Gary Oldman, Isabella Rossellini

Álvaro Siviero foi o primeiro pianista brasileiro escolhido a participar, com outros cinco pianistas mundialmente selecionados, da imersão na obra pianística de Beethoven na Fondazione Wilhelm Kempff, centro de excelência mundial nos cursos de interpretação da obra do compositor alemão.



Biografias aconselhadas:


  1. Lewis Lockwood – “Beethoven: the Music and the Life”. Editora: W. W. Norton & Company; Essa obra se encontra em português, com excelente tradução, sob o título “Beethoven: a Música e a Vida”. Editora Códex.

  2. Maynard Solomon – Beethoven. Schirmer Trade Books.

  3. Emil Ludwig – Beethoven. Editora Companhia Editora Nacional.


Filme indicado:


  1. Minha Amada Imortal - Bernard Rose com Gary Oldman, Isabella Rossellini.


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2 comentários


JOAO HOLTZ
29 de out. de 2024

Sensacional!!!! Parabens Alvaro e equipe da TIMELINE!

Alvaro manda a playlist que voce tinha comentado no programa dobre Chopin.

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nutribella79
nutribella79
24 de out. de 2024

Conteúdo espetacular! 🤩🤩🤩👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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