Churchill queria uma guerra contra a União Soviética
- Allan dos Santos

- 11 de out. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de out. de 2024
Confronto começaria logo depois da queda de Hitler

Em questões estratégicas, é frequente citar a aliança que Churchill e os EUA fizeram com Stalin. Logo após-guerra de 1945, enquanto o mundo começava a se recuperar dos estragos da Segunda Guerra Mundial, um novo conflito parecia estar à espreita, desta vez entre os antigos aliados: a Grã-Bretanha e a União Soviética. A Operação Impensável, um plano secreto encomendado por Winston Churchill, reflete a complexidade das relações entre os Aliados e o início da Guerra Fria, um período marcado pela transição de uma aliança contra um inimigo comum para uma confrontação ideológica e política.
A Operação Impensável nasceu do crescente ceticismo e desconfiança de Churchill para com Joseph Stalin e as intenções soviéticas na Europa. Apesar da cooperação durante a guerra, as diferenças ideológicas e os objetivos pós-guerra divergentes entre o Ocidente livre e a União Soviética comunista rapidamente vieram à tona. A dominação soviética da Europa Oriental e a implantação de regimes comunistas em países libertados do nazismo alarmaram Churchill e outros líderes ocidentais, levando-os a contemplar a possibilidade de um conflito armado para reverter a expansão soviética.
A Operação Impensável visava impor à União Soviética o fim da expansão ditatorial comunista, através de um ataque surpresa. O plano incluía duas fases: uma ofensiva para libertar a Polônia, seguida pela defesa contra uma possível contraofensiva soviética. Envolvia o uso de forças britânicas, americanas, e restos do exército alemão, numa aliança não natural que demonstrava o desespero da situação.
O plano enfrentava vários desafios, desde a disparidade de forças — as soviéticas superavam em muito as anglo-americanas na Europa — até as críticas dos pacifistas pró-soviéticos. Além disso, havia dúvidas significativas sobre a viabilidade de alcançar um sucesso decisivo. O receio de iniciar uma guerra nuclear emergente também desempenhou um papel nas hesitações.
A Operação Impensável nunca saiu do papel, em grande parte devido a esses desafios insuperáveis. No entanto, ela simboliza o início da Guerra Fria, um período de tensão geopolítica, corrida armamentista, e confrontos indiretos que moldariam o cenário internacional por décadas. Este plano reflete a rápida deterioração da aliança entre os Aliados e o início de uma era dominada pela desconfiança mútua e pela competição ideológica. Período em que Stalin conseguiu se fazer de vítima e que colocara a União Soviética como coitadinha, ou seja, Stalin teria "ajudado" a derrubar Hitler e ainda assim era visto como vilão.
Os documentos e análises históricas da Operação Impensável oferecem uma janela fascinante para as complexidades das relações Aliadas no imediato pós-guerra. Eles revelam não apenas o pensamento estratégico da época, mas também a seriedade com que a possibilidade de um novo conflito foi considerada. A Operação Impensável serve como um lembrete da covardia de muitos em relação aos países vizinhos da Rússia, muitos até hoje sob o domínio do Kremlin, ainda que velados. Os caminhos não tomados na história e das tensões que eventualmente moldariam o mundo durante a Guerra Fria teriam libertado todos os povos que passaram décadas sob o regime soviético. Foi exatamente a desistência dessa operação a raiz do mundo pacifista que hoje está completamente nas mão dos revolucionários de diferentes matizes: globalizas, soviéticos e os árabes revolucionários.
A operação, embora nunca implementada, ilustra a fragilidade do Ocidente e sorrateira diplomacia soviética. O que seria do Leste Europeu sem as inúmeras mortes e prisões sob as ordens do Kremlin? É difícil pensar, pois já havia uma organização revolucionária que não estava ligada ao Kremlin, como a Revolução Estudantil de 68.
Documentos comprobatórios da Operação Impensável
A existência e os detalhes da Operação Impensável são corroborados por vários documentos desclassificados e estudos históricos. As provas que sustentam a ideia de que Winston Churchill considerou a possibilidade de um conflito armado com a União Soviética após a Segunda Guerra Mundial incluem:
1. Documentos Oficiais da Operação Impensável: Os próprios documentos da Operação Impensável, que foram desclassificados e tornados públicos, fornecem a prova mais direta da consideração de Churchill e do Estado-Maior Britânico de uma possível guerra contra a União Soviética. Esses documentos detalham o planejamento estratégico, as forças envolvidas, e os objetivos da operação.
2. Memórias e correspondências de Churchill: As memórias de Winston Churchill e a correspondência entre ele e outros líderes da época, como o Presidente dos EUA e os comandantes militares, frequentemente refletiam sua desconfiança em relação às intenções soviéticas na Europa e a possibilidade de uma confrontação futura.
3. Registros do Pós-Guerra: Os registros do período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial mostram uma crescente preocupação entre os líderes ocidentais com a expansão soviética na Europa Oriental e a imposição de governos comunistas nos países libertados do nazismo, o que alimentava o receio de um conflito futuro.
4. Análises Históricas: Historiadores que estudaram a Guerra Fria e as relações entre os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial frequentemente citam a Operação Impensável como um indicativo do rápido esfriamento das relações entre a União Soviética e o Ocidente após a derrota da Alemanha.
5. Testemunhos de Contemporâneos: Os testemunhos de políticos, militares e diplomatas envolvidos nas decisões do pós-guerra também oferecem insights sobre o pensamento estratégico da época e a seriedade com que a possibilidade de um conflito com a União Soviética foi considerada.
Esses documentos e análises não apenas comprovam que Churchill e outros líderes ocidentais contemplaram a ideia de uma ação militar contra a União Soviética, mas também destacam a complexidade da transição para o período da Guerra Fria, onde a desconfiança em relação à Stalin se tornaria a principal característica das relações internacionais.
Analisando hoje e olhando para trás, vendo todo sangue derramado por mãos soviéticas, seria certo dizer que Churchill estava exagerando?
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